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Os erros e acertos de “Salve Jorge”

Fotos: Divulgação / Rede Globo

Após quase sete meses de exibição, a Globo colocou na noite desta sexta-feira (17/05) o ponto final em "Salve Jorge". A novela estreou logo depois do fenômeno "Avenida Brasil", o que já tornava difícil sua trajetória, já que muitos telespectadores estavam com Carminha (Adriana Esteves) e o pessoal do Divino na memória. Apesar da demora para engrenar em audiência (só começou a ganhar ritmo e a decolar da metade para o final), não foi um fracasso retumbante do horário das nove e o último capítulo marcou a ótima média de 45 pontos com pico de 49, segundo o Ibope.

"Salve Jorge" teve altos e baixos, mas uma coisa é certa: para o bem ou para o mal, todos comentavam os capítulos, principalmente nas redes sociais, onde a autora Glória Perez é presença constante - ela fazia questão de rebater as críticas. Confira pontos positivos e negativos dessa história campeã de repercussão (principalmente pela patrulha dos internautas), mas longe da galeria de novelas marcantes.

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ERROS

A repetição de Glória Perez - ela optou por incluir mais uma vez a conexão com outro país em uma história de sua autoria. Desta vez, nos levou para a Turquia - o que gerou muitas críticas pelas semelhanças com "O Clone" (2001) e "Caminho das Índias" (2009). Um símbolo desse repeteco é a atriz Jandira Martini, que parece ter vivido a mesma personagem nas três tramas. No começo da novela, alguns personagens desembarcaram na Espanha. Ter optado por mantê-los por lá talvez teria evitado tantas comparações - e a Espanha é, de fato, uma rota internacional de tráfico humano. Mas Glória parece gostar da cultura do Oriente, lembrando que Istambul tem uma parte oriental e outra ocidental.

A Turquia estereotipada - "Salve Jorge" pode ter contribuído para incluir o país no roteiro de viagem dos brasileiros, mas o retrato da Turquia deixou a desejar. No país idealizado por Glória Perez, principalmente na Capadócia, as pessoas pareciam ultrapassadas, com uma abordagem muito folclórica das tradições.

A "chilique estrangeira" - O que era para ser a segunda principal trama de "Salve Jorge" se tornou, na verdade, o enredo mais entediante da trama. O triângulo amoroso envolvendo Zyah (Domingos Montagner), Ayla (Tânia Khalill) e Bianca (Cléo Pires) foi chato do começo ao fim.

As falhas de continuidade - Foram muitas. Os olhares mais atentos não deixaram nada passar despercebido. Glória promoveu o reencontro entre o investigador Barros (Marcelo Airoldi) e Wanda (Totia Meirelles) na delegacia, mas esqueceu que os dois já se conheciam - ele havia interrogado a vilã, que usou o nome de Djanira, quando ela bateu no carro de Maitê (Cissa Guimarães). Já Mustafá (Antônio Calloni) encontrou com Morena (Nanda Costa) na Turquia como se fosse a primeira vez. Mas já havia estado com ela no Brasil, na cena em que Jéssica (Carolina Dieckmann) foi encontrada morta num banheiro. Porém, o cabelo de Morena liderou o ranking de gafes, ora cacheado, ora liso e sem volume.

O time dos esquecidos - Uma marca negativa de "Salve Jorge" foi ter deixado em segundo plano boa parte do elenco. Glória chegou a esquecer, de fato, de certos atores. No finalzinho, tentou se redimir, resgatando alguns. Exemplos: Eva Todor (Dália), Cristiana Oliveira (Yolanda), Duda Nagle (Caíque), Sidney Sampaio (Ciro), Walderez de Barros (Cyla), Rosi Campos (Cacilda), Jonas Mello (Silveira) e Cris Vianna (Julinha). Só o paradeiro de André Gonçalves permaneceu um mistério. Onde foi parar o Miro?

O casal Drika e Pepeu - Mariana Rios era apontada como uma promessa no início da novela. Mas a autora não sabia o que fazer com ela e com Ivan Mendes. A dupla não virou. Na contramão das pretensões iniciais, entraram para o elenco dos “figurantes de luxo”.

O mocinho Théo - Ao contrário do que cantou Roberto Carlos, o personagem de Rodrigo Lombardi estava longe de ser "o cara". Nos últimos capítulos Théo ganhou força, passou a se impor, mas já era tarde. Ficou à sombra de boas personagens femininas. Glória escreveu para as mulheres!

O pouco destaque de São Jorge - Tudo bem que a novela sofreu a patrulha evangélica no início, uma precipitada ameaça de boicote ao texto de Glória Perez. Mas em uma trama chamada "Salve Jorge" o santo não fez muitos milagres - até ficou em segundo plano. Em muitos momentos de tensão, nem os devotos Théo (Rodrigo Lombardi) e Morena (Nanda Costa) recorriam ao Guerreiro. Quando percebeu que a audiência reagiu, a autora voltou a citá-lo (a redenção foi o último capítulo e o que foi Wanda pagando de evangélica? boa sacada!). Só esqueceu de homenageá-lo no dia de São Jorge. A data passou em branco no capítulo de 23 de abril, feriado no Rio de Janeiro.

Turco perdeu espaço - Thiago Abravanel teve um início promissor em “Salve Jorge”, mas seu personagem (Demir) deu uma estacionada. Nada que tire o mérito do intérprete, apontado com uma das revelações do elenco.

ACERTOS

A trama policial - Podem falar, mas Glória Perez foi feliz ao abordar o drama do tráfico humano e despertou a atenção dos brasileiros para o tema. Essa, aliás, é uma particularidade que admiro na autora: uma visão quase jornalística para identificar assuntos de repercussão, mesclar ficção e realidade. A trama policial teve mais ritmo da metade para o fim da novela, mas o serviço foi prestado.

"Delegata" cheia de estilo - Impossível falar da trama policial e não citar Giovanna Antonelli. A delegada Helô roubou a cena por ser extremamente carismática, humana e divertida. Maquiagem, cabelo, figurino e acessórios da personagem caíram no gosto popular. Giovanna arrasou e a parceria com Alexandre Nero (Stênio) rendeu bons momentos.

A protagonista - Apesar de alguns atribuírem o baixo Ibope de "Salve Jorge" à escolha de Nanda Costa para o papel de Morena, a atriz deu conta do recado do começou ao fim (emocionou no último capítulo). Glória Perez insistiu na escalação (uma novidade) e foi muito feliz. Nanda já havia arrasado no papel de Dolores Duran na série “Por Toda Minha Vida” e provou que, depois da mocinha da favela, pode muito mais.

A grande vilã - No quesito vilania, o momento foi de Totia Meirelles, há tempos prestando serviços para a Globo, mas sempre em segundo plano. Wanda foi um divisor de águas na carreira da atriz.

Claudia Raia que nos desculpe, mas Lívia Marini não deve entrar para a galeria das vilãs inesquecíveis. Provavelmente, será lembrada pelas trapalhadas e como a "vilã das seringadas" - por conta do recurso pitoresco que utilizava para eliminar quem ameaçasse seus planos - e a que dançou numa taça cheia de espuma, imitando champanhe, e saiu molhada no capítulo final.

O núcleo do Alemão - Grande parte dos destaques da novela estava no cenário do morro carioca: Lucimar (Dira Paes), Pescoço (Nando Cunha), Seu Galdino (Francisco Carvalho) e Delzuite (Solange Badim). Divertidas também as intervenções de Neusa Borges como Diva e Walter Breda na pele de seu Clóvis.

Os bordões de Vanúbia - Como esquecer de Roberta Rodrigues? Tomando um banho de sol na laje ou armando um barraco, Maria Vanúbia agradou em cheio. E os bordões da personagem foram parar na boca do povo: "Quem é você na fila do pão francês?", "Pi, pi, pi, olha o recalque!" e "Tá pensando que é bagunça?" são alguns. A atriz brincou - e se destacou - em cena.

Thammy Miranda - Mesmo não sendo atriz, a filha de Gretchen foi uma das sensações da novela. Sua vida pessoal (ela assumiu ser lésbica) se misturou com a história da personagem Jô. O momento da virada veio quando ela deixou de lado o visual masculinizado. Na pele de Lohanna, dançou "Conga, Conga, Conga" e seduziu Russo (Adriano Garib). É daquelas que conseguiram transformar um limão em limonada. Ótimo trunfo!

A empregada de dona Helô - Não dá pra finalizar sem citar a estridente, intrometida e atrevida empregada Creusa. Às vezes, queríamos demiti-la, mas adorávamos os pitacos que ela dava na vida dos patrões, Helô (Giovanna Antonelli) e Stênio (Alexandre Nero). Resultado da competência de Luci Pereira.

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Sobre Gustavo Baena

Gustavo Baena é jornalista e já passou por diversas mídias: TV, jornal, rádio e webTV. Foi repórter e apresentador de programas jornalísticos e de entretenimento na RedeTV!, Band e TV+. Ainda assinou colunas e críticas sobre televisão no Diário do Grande ABC, Diário Popular e Diário de S. Paulo/Organizações Globo. É um incansável pesquisador da história do veículo e seus bastidores. Entre os focos de estudo, estão telenovelas latinas (exibidas no Brasil ou não), remakes e, claro, as produções nacionais. Também é roteirista profissional e empresário de Comunicação. Desde 1º de março, é crítico de TV do Yahoo e assina o blog "Sob Controle", analisando destaques da programação.

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