Sob Controle

Beijo gay no horário nobre da Globo foi básico, mas significativo!

Fotos: Reprodução de TV / Divulgação Globo e SBTLá se vão quase dez anos desde que a cena do beijo gay entre Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) foi gravada e vetada na novela "América", de Glória Perez. Desta vez, a Globo gravou, regravou (sob olhares atentos da alta cúpula) e exibiu a expressão máxima do afeto entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) em "Amor à Vida".

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A "bicha má" do início encontrou o "Carneirinho" cheio de boas intenções e o público passou a torcer pelo casal, que ganhou status de protagonista, apagando ainda mais Paloma (Paolla Oliveira) e Bruno (Malvino Salvador). Tanto que no último capítulo ninguém queria saber do desfecho dos dois, mas do tão esperado beijo entre dois homens. A campanha #beijafélix estava forte nas redes sociais. Fato inédito!

Já tínhamos visto um beijo roubado entre os personagens de Guilherme Weber (Benny) e Bruno Garcia (Pedro) na minissérie "Queridos Amigos" (2008), de Maria Adelaide Amaral, mas (reforço) não foi recíproco - daqueles com olhos fechados e trilha romântica. Os atores Fábio Assunção e Vladimir Brichta "se beijaram" em "Tapas e Beijos". Só que não passou de uma brincadeira entre os personagens Jorge e Armane, heterossexuais, respectivamente. Um beijo gay ainda foi cortado do seriado "Clandestinos - O Sonho Começou", de 2010, também na Globo.

Desta vez, o autor Walcyr Carrasco (todo mérito pra ele) criou toda uma atmosfera para que isso acontecesse. O contexto ainda incluía outros personagens gays - por sinal, nunca vimos tantos homossexuais desfilarem numa novela das nove (ou de qualquer outro horário)! Se a emissora não aproveitasse o momento propício, perderia o trem da história.

Personagens gays conquistaram o público e ajudaram a ampliar a discussão sobre a homossexualidadeSempre elogiei a atuação de Solano aqui no blog e defendia que a cena seria a coroação de um trabalho. O ator entra agora, merecidamente, para a história das telenovelas brasileiras não só pelo talento demonstrado ao longo dos 221 capítulos (ele foi destaque em quase todos!), mas por ter protagonizado o primeiro beijo gay (com Thiago Fragoso, claro).

Não foi aquele beijo? ok. Mas nada de frustração! Um selinho prolongado, digamos (a direção da emissora queria mais que um selinho e menos que um beijo de língua, escandaloso). Delicado e romântico. Foi muito mais que o selinho - esse, sim, xoxo - que as lésbicas Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) trocaram em "Mulheres Apaixonadas", de Manoel Carlos, em 2003. Em 12 de maio de 2012, o SBT exibiu, de fato, o primeiro beijo gay de uma telenovela brasileira (nos anos 60, Vida Alves e Geórgia Gomide se beijaram, mas foi no "Grande Teatro", da TV Tupi).

Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Giselle Tigre) se beijaram apaixonadamente em "Amor e Revolução", escrita por Tiago Santiago. Mas sabe como é, não tem o mesmo impacto de uma novela do horário nobre global. A cena registrou 9 pontos de audiência (um pico para a trama). O último capítulo de "Amor à Vida" marcou 45 de média e 48 de pico, de acordo com dados prévios do Ibope (cada ponto representa 65 mil domicílios na Grande São Paulo).

Seja como for, o beijo em "Amor à Vida" foi o tão esperado beijo gay, que a Globo nos ofereceu em pleno 2014! O beijo entre os queridos Félix e Niko, que vão deixar saudade. Como disse um amigo, simples, básico, porém afetuoso e natural, como tem que ser. E o melhor de tudo: representativo! Nem todos gostaram? Claro que não.

Quando ocorreu o primeiro beijo gay na Argentina (hoje já superaram a questão), também não foi uma unanimidade. Há a patrulha religiosa e tudo mais. No entanto, valores e caráter não se medem pela sexualidade e o que vimos na noite desta sexta (31/01), além de histórico, contribui para que se amplie essa discussão numa sociedade ainda hipócrita e preconceituosa.

Imagine o que significou o gesto dos personagens de Solano e Thiago para que milhares de jovens homossexuais possam elevar sua autoestima e conquistar espaço para o diálogo, a aceitação e o respeito dentro das próprias famílias, inclusive. Estamos avançando - quase dez anos depois de "América" -, já não era sem tempo! Precisamos ainda mais.

Vale destacar que a cena final entre pai e filho foi linda. Uma das mais lindas dos últimos tempos (mais significativa que o beijo até)! César (Antonio Fagundes), o homofóbico de plantão, se rende: "eu te amo, filho". E Félix lançou um "eu te amo, pai". Não precisou mais nada para emocionar e dar o recado por meio de interpretações marcantes.

Tanto que o que a novela teve de ruim parece que foi esquecido. Falemos a verdade: a cena do beijo foi linda, a de pai e filho simbólica, mas - independentemente de ser gay ou hétero - Félix jogou a sobrinha numa caçamba de lixo; entre outros crimes!

Só que a interpretação brilhante de Solano nos arrebatou, o desejo de um final feliz para Niko também e esquecemos desse detalhe. Do ponto de vista da dramaturgia, ainda que em liberdade, redimido (e beijando muito!), poderia ter ficado claro que Félix responderia judicialmente pelo que fez. Apesar das incoerências, adoramos o final porque o amor venceu!

A repercussão, no fim das contas, foi bem mais positiva do que se esperava. Não vimos ninguém "virando" gay após assistir a cena do beijo (chega de julgamentos e patrulhas infundadas como a da "má influência"; as pessoas são o que são) e a Globo, enfim, deu uma grande contribuição social. Aliás, todo o último capítulo teve aqueles desfechos que dão gosto de ver em novelas: bem amarrados, bem definidos, com tempo e sem esquecer de ninguém. Gosto assim!

Em breve, veremos um beijo lésbico entre as personagens Suzane (Juliana Schalch) e Wanda (Inês Peixoto) no recém-lançado seriado "A Teia", desmistificando ainda mais a polêmica. O mesmo tratamento é aguardado em "Em Família", que estreia segunda (03/02). Já se fala num provável triângulo amoroso entre Clara (Giovanna Antonnelli), Marina (Tainá Müller) e Vanessa (Maria Eduarda).

É o fim de um tabu. Mas será ainda mais quando, em vez de um "beijo gay", o encostar de lábios entre dois homens ou duas mulheres for simplesmente um "beijo" e ponto.

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Sobre Gustavo Baena

Gustavo Baena é jornalista e já passou por diversas mídias: TV, jornal, rádio e webTV. Foi repórter e apresentador de programas jornalísticos e de entretenimento na RedeTV!, Band e TV+. Ainda assinou colunas e críticas sobre televisão no Diário do Grande ABC, Diário Popular e Diário de S. Paulo/Organizações Globo. É um incansável pesquisador da história do veículo e seus bastidores. Entre os focos de estudo, estão telenovelas latinas (exibidas no Brasil ou não), remakes e, claro, as produções nacionais. Também é roteirista profissional e empresário de Comunicação. Desde 1º de março, é crítico de TV do Yahoo e assina o blog "Sob Controle", analisando destaques da programação.

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