O diretor Drew Goddard (roteirista de "Cloverfield" e da série "Lost") faz sua estréia em longa-metragem com "O Segredo da Cabana", um filme pequeno, mas que extrai dessa modéstia uma certa força. A estrutura modesta (em termos Hollywoodianos) disponível para o filme oferece alguma liberdade para que o projeto tenha uma pequena dose de risco. Ainda que esse risco esteja mais na "mensagem" e na dramaturgia do que na direção cinematográfica.
Como vem sendo comum desde o fim dos anos 90, os filmes de terror atuais se parecem cada vez mais com pastiches da história do gênero. Diante do gênero Terror, estes filmes tomam duas atitudes dominantes: riem dele ou selecionam somente os recursos que podem causar emoções superficiais e fáceis nos espectadores."O Segredo da Cabana" toma as duas atitudes de forma simultânea: ridiculariza o modelo atual deste tipo de filme ao mesmo tempo em que o reproduz. Tudo com muita consciência.
Esse excesso de auto-consciência é dramatizado na crítica explícita aos reality-shows e à lógica televisiva e midiática como um todo. O "filme dentro do programa de tv" são ridicularizados pelo filme verdadeiro (O Segredo da Cabana), e ao final até os Deuses entram em campo para justificar o mundo posto como um inferno que é sustentado pelo sacrifício de sua juventude.
A heroína do filme, Dana (Kristen Connolly), é virgem e mais observa do que age. Metáfora da inocência que o filme elogia, ao mesmo tempo em que faz questão de esculachar (matando com prazer) a menina lasciva, o atleta-herói e o inteligente-responsável. Marty, o maconheiro, é aquele tido como louco pela sociedade, mas que o filme prova ser o mais lúcido: ele compreende a manipulação do sistema antes dos outros. Ele é o único que "sobrevive" ao lado da virgem. A menina, aliás, termina o filme coberta de sangue, indicando que foi, enfim, desvirginada (perdeu a inocência, pois descobriu a verdade do mundo).
O filme é repleto desse tipo de metáfora fácil e de personagens arquétipos que não extrapolam os limites da arquetipia: tudo é muito chapado. Ironicamente isso é coerente com o projeto de expor o mundo e o cinema de terror atual como um lugar habitado por marionetes. Têm-se aí mais um projeto interessante de filme do que um filme de fato. Se o aspecto (usado com muita contenção) do humor jocoso e grotesco fosse mais explorado talvez existiriam mais situações interessantes de se ver, e não apenas de se "ler" (entender).
Tendo em vista os trabalhos anteriores do diretor como roteirista de televisão, notadamente de "Lost", esse desejo de satirizar um modelo de entretenimento que é essencialmente manipulador não deixa de ser interessante. Como se, ao migrar da televisão para o cinema, o roteirista/diretor agora se sentisse mais livre formular uma crítica à plataforma televisiva. No entanto, essa premissa da qual ele parte vai ser prejudicada pela necessidade de facilitar demais o entendimento dela. Tudo o que é importante deve ser falado por algum personagem. Em um gênero onde o que há de mais forte é estimular o trabalho da mente do espectador, esse excesso de clareza diminui o filme. Falta ambiguidade, sensualidade visual e intuição. Faltam sombras.
Na próxima semana, mais um filme de terror de 2012.


