RIO - Inicialmente chamado "MPB Especial" e depois consagrado como "Ensaio", o programa que Fernando Faro mantém há quatro décadas na TV Cultura foi bem resumido nas caixas de CDs que o Sesc lançou em 2000. O preço e o formato (músicas entremeadas com depoimentos) dificultavam o acesso de um público maior, mas foi importante como registro histórico. Depois começaram a sair DVDs, num arco que vai do excepcional de Elis Regina (1973) ao constrangedor de um Chico Buarque, que não conseguia completar as músicas (também de 1973). A coleção "Ensaio", que a Warner lança agora com oito títulos acrescidos de dois de outros programas da Cultura, é o pior momento da trajetória.
Um dos problemas está explicitado nos encartes, nos quais há o aviso de que os áudios foram "captados em diferentes anos e suportes, portanto podem haver imperfeições técnicas na sua reprodução". No CD de João Nogueira - oriundo do programa "Bem Brasil" (1992) -, sua voz é soterrada pelo som da banda. Em faixas de CDs como o de Marcos Valle, a voz soa distante. Para lançar algo com defeitos de qualidade, deve haver um peso histórico que compense. Não é o caso. Também faltam informações sobre músicos participantes das gravações.
Outro problema é tratar como faixas completas canções que vão pouco além de vinhetas. Acontece, por exemplo, em "Meu mundo caiu", de Maysa. Em muitos desses programas, as músicas serviam para ilustrar as entrevistas. Quando se retiram os depoimentos para produzir um simulacro de coletânea, perde-se o contexto.
Quem não sabe que "O meu pecado" não é só de Zé Keti, mas também de Nelson Cavaquinho - que não a assinou, pois eles eram de sociedades arrecadadoras diferentes -, pode não entender porque ele a canta, já que a explicação não está no CD. Mas é o melhor produto da série: repertório com coisas não óbvias e só com vozes e violões (dele e do parceiro Guilherme de Brito), o que reduz bem os prejuízos técnicos. Milton Nascimento & Wagner Tiso, Moraes Moreira & Pepeu Gomes, Luiz Melodia e Altamiro têm bons momentos, mais do que Zélia Duncan - que ainda amadurecia em 1997 - e Peninha.

